sexta-feira, 17 de abril de 2009

Diário Passado.

Diário passado I.


By Alice




Sou Alice.
Escrevo hoje porque uma força que me transcende me dá voz.

Desde que eu era criança, tinha dias que eu não queria acordar, mas ainda assim o sol nascia e atrapalhava os meus planos de mumificar-me no quarto escuro.
Eu sempre odiei a luz do sol. Odiava-la mais do que a minha prisão infantil.

Quanto penso naquele tempo distante me lembro constantemente de escadas, subia e descia degraus tantas vezes por dia que tinha as panturrilhas duras como as de uma criança normal jamais seriam. Lembro-me com tanta perfeição que sinto o cheiro da água doce, enlameada, no pé na escada, e da madeira meio apodrecida rangendo e tocando asperamente os meus pés descalços enquanto eu subia para casa, e descia oura vez... Tantas vezes por dia.

Quando eu era em pequena e o incomodo da claridade batia na minha janela eu consumava refugiar-me no lado escuro da mata, onde as copas das árvores faziam sombras que tingiam círculos escuros no chão. O pequeno lago de águas negras deixava o ambiente frio, e eu me recolhia arrepiada na beirada das rochas, gostando da sensação.

Alguns anos depois, eu só podia ir até lá de madrugada, fugindo do meu quarto, sorrateira como um camundongo que percorre os corredores das casas humanas à noite.
Meu pai e meus irmãos saíam para trabalhar depois que escurecia. Eu então, não tinha com que me preocupar, minha mãe abria o grande baú em seu quarto, que ela pensava que ninguém sabia que existia. Ela retirava e colocava de volta, sucessivamente, todas aquelas fotos, aquelas roupas brilhantes, aqueles objetos estranhos. Seus olhos fiavam embargados, e ela tomava pílulas. Eu, na verdade, era muito parecida com ela. O formato dos olhos, a espessura dos fios de cabelo, os lábios magros em relação aos olhos grandes. Só tinha a pele ligeiramente mais escura que a dela. Já, em compensação, eu era o total oposto do meu pai e irmãos. Não tinha um traço sequer de semelhança.


Mas estou me perdendo nas minúcias...Na verdade quem me lê precisa saber que eu não sou necessariamente uma boa escritora.
A questão é que aprendi a andar e enxergar no escuro como um gato. E aprendi a acreditar no sobrenatural quando em cima das copas das árvores, no breu total da mata, eu via aquela luz solitária piscando bem ao longe. Perto de onde as árvores despencavam e faziam o mundo ranger.


Naquele tempo, com as árvores, eu não me importava. Mas aquela luz... Indicava-me que, assim como eu suspeitava meu destino era maior do que aquele lugar.
Sair de lá, no entanto, foi quase um acaso.

Começou quando eu quebrei o nariz me chocando contra o caule de uma árvore centenária no escuro, em um momento que corria sem pensar, nesse momento senti falta dos meu bigodes de gato. Foi quando eu já não queria nem comer, nem falar, e pensava seriamente em afogar-me no rio frio. Mas esses detalhes não têm espaço no que conto agora.

De verdade o que você precisa saber é que o lugar de onde vim não tinha nada para mim. Logo, deixe-me falar o básico. Hoje tenho mais de quarenta anos, e apesar disso a juventude me fascina. Tenho olheiras muito fundas por baixo de olhos muito castanhos e adoraria ter lábios maiores. Tinjo constantemente os cabelos de dourado. Lembra-me os fios reluzentes que eu tinha quando criança, e que o tempo converteu em um marrom pálido.

Aprendi a escrever com quinze anos, e hoje, como já disse, sou uma escritora não muito talentosa, apesar de uma exímia leitora. Em compensação sou uma excelente fotografa.
Mulheres são meu tema preferido.
Gosto das poses que só elas são capazes de alinhar com perfeição, gosto do molde que só os dentes femininos podem ter, da movimentação dos longos fios dos seus cabelos.
Mas ironicamente foi um homem que me salvou. Eu tinha quatorze, treze anos? Algo por aí.
Ele era louro, mas não louro falso como eu. Era louro como...Como Stella.
Há sim... É claro que eu conheço Stella. É por causa dela que eu existo aqui. E talvez também por causa de alguém que já se chamou Christina. Mas não poderia mencioná-la agora.

Stella nunca nega sua natureza, monopoliza esse espaço como monopoliza quase todo lugar que freqüenta.
O que eu acho incrível nela é que ela consegue tornar qualquer ambiente inescrupulosamente feminino. Talvez por isso tenha me apaixonado por ela. Ela era tão jovem... Tão cheia de vida.
Mas tudo que ela sabia fazer era falar da tal Nahema.
“Alice vi a Nahema na sua revista”. “Alice onde foi que você tirou aquela foto?”. ‘ Alice, querida, por favor, me diga”.

Na verdade essa Nahema é simplesmente a mulher mais feia que eu já vi. Acho que ela tinha quase dois metros de altura. O cabelo queimado, a pele escura... Não tinha uma única curva no corpo inteiro, nem ao menos seios ela tinha. Era um saco de ossos. E ainda tinha aqueles olhos horríveis. Deformados, mal formados, estragados. E Stella ainda os achava a coisa mais maravilhosa do mundo. Sem contar que ela era dois, três anos mais jovem do que a própria Stella, que nessa época tinha vinte e dois, vonte e três anos...

Pois eu nunca disse. Nunca disse onde achei aquele demônio chamado Nahema.
E lá vou eu denovo, contando detalhes fora de hora.
Nunca me escapa da mente, o fato de que eu costumo pensar com freqüência no dia que saltei do décimo terceiro andar daquele hotel ordinário. Ao contrário do que se imagina quando se sabe de tudo, eu não pensava em Stella. Stella Dormia na cama logo atrás da janela onde eu estava de pé no parapeito.

As pessoas lá embaixo exibiam o verdadeiro caráter da humanidade. Pareciam insetos andando em linha reta rumo a um monte de nada.
Minha boca tinha gosto de choro eliminado por dias e dias a fio.
Mas aquilo não me despertou. O tormento que me movia já estava instaurado há tanto tempo que eu nem enxergava mais pequenas tristezas.
Eu pulei de uma vez.
Pensei em uma última palavra, na verdade um nome, antes do meu corpo transpassar os galhos das árvores e se chocar contra o asfalto; e a minha consciência flutuar na densidade da água até o limbo da terra, onde eu odiava aqueles inocentes.

Christina.
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Acho que eu sempre senti essa tristeza.
Sempre tive essa alma de peixe.
Essa toca na floresta.
Tristeza, sol,
Pílulas.
Tristeza,solidão,
Pílulas.
Incerteza,
Pílulas.
Juventude,
Pílulas.
Estabilidade,
Pílulas.


As copas das arvores, as plantas que morriam, os flashes de luz piscando. Madeira podre que deixa o meu pé podre. Fujo no sol de batom vermelho. Remo o barco de vestido brilhante. Vejo a minha mãe chorando e suas lágrimas não são nada para mim. O sol escurece a pele. O sol escurece a olheira. Escurece a minha vida.
Velhice, meia idade, fantasma. O sol que eu aceitei morreu. A lua que o minou morreu.
E eu fotografo, fotografo a alma, e me arrependo.
Ainda tenho tanto que falar.
Ainda tenho tanto que dizer.
Principalmente porque eu nunca tive nada meu.
E porque eu sempre quis morrer a tanto tempo.
Que não tenho certeza que já não estou morta.
E agora faço desse espaço meu.
O diário do passado é sempre meu.
Sou Alice. E agora quero falar.

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quarta-feira, 15 de abril de 2009

UM BRINDE

Hoje eu brindo a Arte Surrealista, porque cada vez que vejo uma expressão bem feita de sua razão de ser, minhas vísceras doem.
Tenho especial apreço a uma corrente que foi chamada de "logicofobista". Esses artistas acreditavam que, a arte surrealista estava intimamente ligada a verdade não palpavél do seu subconsciente. Acreditavam que, vários elementos que estão influenciando o mundo a sua volta, não são perebidos, pois estão dentro da sua alma e não inseridos no nosso cotidiano, na aparência física das pessoas, objetos e meio ambiente. E isso, faz do nosso mundo incompleto, inintelígivel em muitos aspectos, e não -pleno.

É importante não confundir a ideia dos Logicofobistas com a ideia do "mundo-arquétipo" de Platão. Na mina opinião uma coisa pouco, ou nada tem haver com a outra. Os Logicofobistas não procuram o mundo das ideias como consolo para uma realidade vazia e imperfeita. Ao meu ver, o que eles buscam é o valor do inconsciente, da alma,como expressão de plenitude.
Essa corrente de pensamento trabalha com a premissa de que os elementos do inconsiente, que chegam naturalmente até o artista por rajadas de inspiração, quando inseridos dentro de um cotidiano comum( insersão que se dá através da arte), são capazes que criar um mundo pleno, completo, inteligivél.

Na minha opinião, Remédios Varo era uma Logicofobita por excelência. E os quadros dela tocam a minha alma como se completassem essas lacunas do inconsciente que assobram os seres humanos. Sua ideia de ciclo me arrepia. Sua simbologia, seus cenários, sua delicadeza... eu as vivi em outra vida.

Brindaria Longa Vida a Rémedios se ela não estivesse morta.
Mas como acredito que levarei suas telas comigo durante toda vida, e depois de morta gravadas na minha essência, assim como a credito que tantas outras pessoas farão....
Brindo a sua imortalidade.

Não tenho "cacife" para me considerar algo tão grandioso como uma Logicofobista, só sei que a corrente de pensamento que justifica boa parte da arte surrealista me toca tanto... que dá vontade de chorar.

Não me culpem. É a lua em peixes.
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domingo, 22 de março de 2009

ÓDIO.

Ás vezes se descobre o que se odeia. E se chega a conclusão que seria melhor não haver descoberto.
Mas o ódio é involuntário assim como o amor.
Portanto sigo odiando.

... Se eu morresse agora eu não me importaria.
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sexta-feira, 20 de março de 2009

OVERDOSE DE AUGUSTO.

Augusto dos Anjos mata.
Augusto dos Anjos tem um poder.... que eu não conheço em absolutamente nenhum escritor.
Auguso dos Anjos grita, o que nós temos medo até de pensar.

Vandalismo é o be-á-bá.... Assim como, Versos íntimos, Canto íntimo, Psicologia de um Vencido, Hino à Dor, a Obscessão do Sangue... Sei todos de cor. Recito a qualquer momento.
Inclusive tenho minhas frases favoritas desses poemas, que me acompanham nos ares de ceros dias. Dias como esse.

VANDALISMO.

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.
Como os velhos Templários medievais

Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos.

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!


Posto hoje Vandalismo, por ser o mais delicado e fatalmente doloroso, apesar de leve como a asa de uma libélula.

Posto em seguida o lado do Augusto que faz meu sangue mudar de consistencia quando eu leio. Não sei explicar como é, e aliás, hoje eu nem quero tentar. Hoje eu só quero fazer existirem esses poemas.

Se você gostou de Vandalismo, Leia Gemidos de Arte, se não gostou, leia do mesmo jeito. Do Augusto nada se perde.

GEMIDOS DE ARTE

I
Esta desilusão que me acabrunha

E mais traidora do que o foi Pilatos!
...Por causa disto, eu vivo pelos matos,
Magro, roendo a substância córnea da unha.

Tenho estremecimentos indecisos
E sinto, haurindo o tépido ar sereno,
O mesmo assombro que sentiu Parfeno
Quando arrancou os olhos de Dionisos!

Em giro e em redemoinho em mim caminham
Ríspidas mágoas estranguladoras,
Tais quais, nos fortes fulcros, as tesourasBrônzeas,
também giram e redemoinham.

Os pães - filhos legítimos dos trigos -
Nutrem a geração do Ódio e da Guerra.
Os cachorros anônimos da terra
São talvez os meus únicos amigos!

Ah! Por que desgraçada contingência
À híspida aresta sáxea áspera e abrupta
Da rocha brava, numa ininterrupta
Adesão, não aprendi minha existência?!

Por que Jeová, maior do que Laplace,
Não fez cair o túmulo de Plínio
Por sobre todo o meu raciocínio
Para que eu nunca mais raciocinasse?!

Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles
Carinhos, com que guarda meus sapatos,
Por que me deu consciência dos meus atos
Para eu me arrepender de todos eles?!

Quisera antes, mordendo glabros talos,
Nabucodonosor ser do Pau d'Arco,
Beber a acre e estagnada água do charco,
Dormir na manjedoura com os cavalos!

Mas a carne é que é humana! A alma é divina.
Dorme num leito de feridas, goza
O lodo, apalpa a úlcera cancerosa,
Beija a peçonha, e não se contamina!

Ser homem! escapar de ser aborto!
Sair de um ventre inchado que se anoja,
Comprar vestidos pretos numa loja
E andar de luto pelo pai que é morto!

E por trezentos e sessenta diasTrabalhar e comer!
Martírios juntos!
Alimentar-se dos irmãos defuntos,
Chupar os ossos das alimarias!

Barulho de mandíbulas e abdômens!
E vem-me com um desprezo por tudo isto
Uma vontade absurda de ser Cristo
Para sacrificar-me pelos homens!

Soberano desejo!
SoberanaAmbição de construir para o homem uma
Região, onde não cuspa língua alguma
O óleo rançoso da saliva humana!

Uma região sem nódoas e sem lixos,
Subtraída á hediondez de ínfimo casco,
Onde a forca feroz coma o carrasco
E o olho do estuprador se encha de bichos!

Outras constelações e outros espaços
Em que, no agudo grau da última crise,
O braço do ladrão se paralise
E a mão da meretriz caia aos pedaços!

II

O sol agora é de um fulgor compacto,
E eu vou andando, cheio de chamusco,
Com a flexibilidade de um molusco,
Úmido, pegajoso e untuoso ao tacto!

Reunam-se em rebelião ardente e acesa
Todas as minhas forças emotivas
E armem ciladas como cobras vivas
Para despedaçar minha tristeza!

O sol de cima espiando a flora moça
Arda, fustigue, queime, corte, morda!
...Deleito a vista na verdura gorda
Que nas hastes delgadas se balouça

Avisto o vulto das sombrias granjas
Perdidas no alto... Nos terrenos baixos,
Das laranjeiras eu admiro os cachos
E a ampla circunferência das laranjas.

Ladra furiosa a tribo dos podengos.
Olhando para as pútridas charnecas
Grita o exército avulso das marrecas
Na úmida copa dos bambus verdoengos.

Um pássaro alvo artífice da teia
De um ninho, salta, no árdego trabalho,
De árvore em árvore e de galho em galho,
Com a rapidez duma semicolcheia.

Em grandes semicírculos aduncos,
Entrançados, pelo ar, largando pêlos,
Voam á semelhança de cabelos
Os chicotes finíssimos dos juncos.

Os ventos vagabundos batem, bolem
Nas árvores. O ar cheira. A terra cheira...
E a alma dos vegetais rebenta inteira
De todos os corpúsculos do pólen.

A câmara nupcial de cada ovário
Se abre. No chão coleja a lagartixa.
Por toda a parte a seiva bruta esguicha
Num extravasamento involuntário.

Eu, depois de morrer, depois de tanta
Tristeza, quero, em vez do nome - Augusto,
Possuir aí o nome dum arbusto
Qualquer ou de qualquer obscura planta!

III

Pelo acidentadíssimo caminho
Faísca o sol. Nédios, batendo a cauda,
Urram os Dois. O céu lembra uma lauda
Do mais incorruptível pergaminho.

Uma atmosfera má de incômoda hulha
Abafa o ambiente. O aziago ar morto, a morte Fede.
O ardente calor da areia forte
Racha-me os pés como se fosse agulha.

Não sei que subterrânea e atra voz rouca,
Por saibros e por cem côncavos vales,
Como pela avenida das Mappales,
Me arrasta á casa do finado Toca!

Todas as tardes a esta casa venho.
Aqui, outrora, sem conchego nobre,
Viveu, sentiu e amou este homem pobre
Que carregava canas para o engenho!

Nos outros tempos e nas outras eras,
Quantas flores!
Agora, em vez de flores,Os musgos, como exóticos pintores,
Pintam caretas verdes nas taperas.

Na bruta dispersão de vítreos cacos,
À dura luz do sol resplandecente,
Trôpega e antiga, uma parede doente
Mostra a cara medonha dos buracos

O cupim negro broca o âmago finoDo teto.
E traça trombas de elefantes
Com as circunvoluções extravagantes
Do seu complicadíssimo intestino.

O lodo obscuro trepa-se nas portas.
Amontoadas em grossos feixes rijos,
As lagartixas, dos esconderijos,
Estão olhando aquelas coisas mortas!

Fico a pensar no Espírito disperso
Que, unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança,
Como um anel enorme de aliança,
Une todas as coisas do Universo!

E assim pensando,com a cabeça em brasas
Ante a fatalidade que me oprime,
Julgo ver este Espírito sublime,
Chamando-me do sol com as suas asas!

Gosto do sol ignívomo e iracundo
Como o réptil gosta quando se molha
E na atra escuridão dos ares, olha
Melancolicamente para o mundo!

Essa alegria imaterializada,
Que por vezes me absorve, é o óbolo obscuro,
É o pedaço já podre de pão duro
Que o miserável recebeu na estrada!

Não são os cinco mil milhões de francos
Que a Memanha pediu a Jules Favre...
É o dinheiro coberto de azinhavre
Que o escravo ganha, trabalhando aos brancos!

Seja este sol meu último consolo;
E o espírito infeliz que em mim se encarna
Se alegre ao sol, como quem raspa a sama,
Só, com a misericórdia de um tijolo!...

Tudo enfim a mesma órbita percorre
E as bocas vão beber o mesmo leite...
A lamparina quando falta o azeite
Morre, da mesma forma que o homem morre.

Súbito, arrebentando a horrenda calma,
Grito, e se grito é para que meu grito
Seja a revelação deste Infinito
Que eu trago encarcerado na minh'alma!

Sol brasileiro! queima-me os destroços!
Quero assistir, aqui, sem pai que me ame,
De pé, à luz da consciência infame
À carbonização dos próprios ossos!
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sábado, 14 de março de 2009

Essa eu tinha que postar.

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Dicionário Isabella:

Pinto: MOCHIBA.
Feio, azedo, fedorento, passa o dia inteiro fechado depois sobe aquela aquela murrinha!

Pinto (2): Murrinha pura!

Informal: QUE NOJOOOOOOOOOOO!


HAHAHAHAHAHAHAHAHA

Adorooooo vc!

=p

PS - Um pouquinho de humor p descontrair o usual drama do blog!

Dispenso comentários!

quinta-feira, 12 de março de 2009

Tristessa

... Ela percorreu muitos quilômetros do centro da cidade até a alameda dos casarões.
Cada passo um sol,
Cada respiração, um clarão que a queimava até os ossos.
Queimava também, como pontadas de alfinetes congelados o medo de não chegar a tempo.

Pela manhã ela havia calçado seus sapatos de festa.
Azuis com saltos mínimos e pequenos brilhos cintilantes.
Passou o batom de Perpétua, vermelho escuro como sangue de gente.E firmou os cabelos ondulados em um rabo de cavalo no topo da cabeça.

Ela passou pela longa escada de degraus altos que substituía o passeio na rua das flores.
Cada pulo esfarelava seu cabelo louro como poeira.
Passou pelas vielas estreitas da rua mofada,
Sentiu cheiro de manga queimada no chão abandonado dos quintais das casas vazias condenadas.
Ouviu o canto estridente do violão de sete cordas que soava da casa de Matilde.A única corrente de energia que permitia que aquele lugar respirasse.

Quando entrou na alameda dos casarões o ar era doloroso como os machucados que sangravam nos seus pés.
Ela lembrava do laranja-fogo, quase florescente das mangas no chão, como se fosse a cor da sua própria alma.
Embora tivesse fome, ela não se importaria se nunca mais comesse nada na vida, contando que chegasse a tempo no casarão número nove.

Em frente o portão ela foi endurecendo suavemente.
Petrificava-se como se a casa tivesse uma parte dos poderes da górgone medusa e a encarasse.
Não tinha ninguém. A casa parecia vazia.
Ela então, ficou meio escondida atrás dos arbustos olhando para cima, onde tudo que podia observar eram as torres octogonais que se erguiam para o céu.
Elas a fizeram lembrar da História da Ilha das agulhas negras, um conto árabe que Matilde lhe contara certa vez, e que a impressionara muito.

O sol abaixava no horizonte e cobria todas as coisas com um véu escuro,
Mais ou menos a representação daquela tristeza que te envolve de repente,
E quando você percebe está completamente dominado, se perguntado de onde ela veio.
Mas o que ela se perguntava, na verdade, era porque não tinha dúvidas de que deveria estar ali.

Sentada no passeio, ela tinha um buraco na garganta maior do que ela própria.
A dor nos pés parecia agradável mediante ao mundo que se esvaía na sua traquéia....

Então foi quando aconteceu.
Um caro negro parou na porta do casarão.
Primeiro veio aquele homem, alto e louro cercado por um séqüito de empregadas com malas.
Depois veio a mulher negra e a menina bonita.Essas pessoas, porém, não passaram de borrões para Stella.
Por último veio a menina alta. Ela era magra, reta e alta como uma tábua.
Sua visão clareou.


Nahema tinha nove anos, assim como Stella.
Era a menina dos olhos de neve.
Tinha algo extremamente antigo emoldurado no rosto.Algo, como que mumificado, do tempo do caos primordial até a nossa atualidade cinza.
Uma lembrança arcaica nebulosa, empoeirada, quase bruta, da qual Stella sentia uma saudade tão infinita que doía cronicamente nas vísceras.
Seu coração batia como coração de rato.
Sua mente oscilava em nuances desordenadas, mas sua boca emudeceu.
Ela ainda era de pedra. Ela não foi vista.

Por isso quando o carro partiu, ela estava de pé, parada entre os arbustos.
Chorava sem saber por que, suas vísceras pareciam se liquidificar dentro dela.
Ela só havia visto aquela menina uma vez e agora era o fim do mundo vê-la ir embora.

Stella faria qualquer coisa para ter ido também.
Ela pensou em se converter em um animal, um fantasma, uma sombra.
Mas o mais doloroso é que ela continuaria sendo Stella.
E ela nunca mais olharia, por mais de um segundo, as roseiras do seu jardim.
E ela nunca mais olharia pela janela quando chovesse.
Nunca mais pararia de pensar em tempestades de neve.

Lembrar-se de algo sem saber o que é,
Enquanto via quem amava, sem saber porque, ir embora,
Era confuso, mas doloroso a ponto dela não se importar em ser atacada por um enxame de abelhas venenosas naquele exato momento; talvez até de desejar o ataque.

...

... E mais tarde, muitos anos depois, ela não sabia que diria para Nahema:

“Eu sempre soube, que passei minha vida inteira procurando por você”.

E que Nahema, infeliz como havia estado por quase toda a sua vida, responderia:

“Sinto muito, mas eu tenho que ir”.

...

Eu não acredito que ninguém seja inteiro por si só.
Que ninguém seja completo por si só.
Eu acredito, por outro lado, que é possível, viver incompleto, se acostumar a isso.
Mas a plenitude...
Vem de uma fonte completamente humana.
Vem de unificação.
Mas vai saber em quantas vidas, e em que tempo e em quantas partes, perdemos nossos pedaços;
Vai saber, em quantas pares, ou em quantas vidas, os reencontraremos.E sabe-se muito menos, se eles ao menos se lembrarão de nós.

...Só podemos, inclusive acreditar que eles existem,
Quando sentimos a falta que eles fazem....


segunda-feira, 9 de março de 2009

Jardim Escuro

Quando ele chegou ele era só uma bolinha de pelo que cabia na palma da minha mão.
E eu ficava imaginando, por onde aquele pinginho de vida teria andado até chegar no meu portão.
Tinha uma cabecinha pequenininha onde só se via olho.

E isso é o que eu acho de mais perfeito nos animais. Mais perfeito do que na comunicação humana.
Com eles a gente fala com o olho.
E ele tinha aquele olhão aberto pronto para amar incondicionalmente.

Eu me apego porque persisto no erro, e nunca aprendo o quando dói.
Eu me propuz desde aquele instante a fazer da vida dele agradavél.
Eu nunca imaginei que pudesse dar errado.
E eu falhei em todo os nivéis.

Eu deixei que as coisas ruins acontecessem.
E agora fico me perguntando o que é certo.
Me perguntando se ele sente dor,
Se ele fica com fome o tempo todo,
Qual será o nivél do desconforto.

Nada que eu fizer poderá redimir o meu descuido.
Eisto não importaria se algo pudesse curá-lo.
E eu fico pensando se eu estou sendo extremamente injusta,
Se eu deveria deixar ir.

É incrivél a capacidade que podemos ter de nos apegar há um ser "não-humano",
E, ao contrário do que se supõe como correto, gostar mais dele do que de muitas pessoas que se conhece.
E se importar mais do que os outros acham que você deveria.

Mas o que mais dói e olhar para ele e saber que poderia ser diferente.
Que ele poderia estar bem.
Saudavél.
Se eu tivesse prestado atenção.

Eu olho aquele olhão verde,
E vejo a fadiga,
Aquela ponta de dor,
Que não deveria existir em um pedaço de vida tão inocente.

A vida é estranha, as vezes mesquinha, as vezes cruel.
A situação que causa enorme dor em alguns, pode ser nada na pele do outro.
Em um momento pode se estar no último dos jardins ensolarados esquecidos dentro da floresta tropical,
No outro, no escuro.

Por muito tempo eu evitei esse post.
Pode parecer ridículo. Dramático. Exagerado.
Mas agora é oficial.
Eu lamento tanto.
Tanto.
Tanto.
Tanto.
Tanto.

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E não sinto vergonha de dizer que peço perdão...
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