sábado, 14 de março de 2009
Essa eu tinha que postar.
Dicionário Isabella:
Pinto: MOCHIBA.
Feio, azedo, fedorento, passa o dia inteiro fechado depois sobe aquela aquela murrinha!
Pinto (2): Murrinha pura!
Informal: QUE NOJOOOOOOOOOOO!
HAHAHAHAHAHAHAHAHA
Adorooooo vc!
=p
PS - Um pouquinho de humor p descontrair o usual drama do blog!
Dispenso comentários!
quinta-feira, 12 de março de 2009
Tristessa
Cada passo um sol,
Cada respiração, um clarão que a queimava até os ossos.
Queimava também, como pontadas de alfinetes congelados o medo de não chegar a tempo.
Pela manhã ela havia calçado seus sapatos de festa.
Azuis com saltos mínimos e pequenos brilhos cintilantes.
Passou o batom de Perpétua, vermelho escuro como sangue de gente.E firmou os cabelos ondulados em um rabo de cavalo no topo da cabeça.
Ela passou pela longa escada de degraus altos que substituía o passeio na rua das flores.
Cada pulo esfarelava seu cabelo louro como poeira.
Passou pelas vielas estreitas da rua mofada,
Sentiu cheiro de manga queimada no chão abandonado dos quintais das casas vazias condenadas.
Ouviu o canto estridente do violão de sete cordas que soava da casa de Matilde.A única corrente de energia que permitia que aquele lugar respirasse.
Quando entrou na alameda dos casarões o ar era doloroso como os machucados que sangravam nos seus pés.
Ela lembrava do laranja-fogo, quase florescente das mangas no chão, como se fosse a cor da sua própria alma.
Embora tivesse fome, ela não se importaria se nunca mais comesse nada na vida, contando que chegasse a tempo no casarão número nove.
Em frente o portão ela foi endurecendo suavemente.
Petrificava-se como se a casa tivesse uma parte dos poderes da górgone medusa e a encarasse.
Não tinha ninguém. A casa parecia vazia.
Ela então, ficou meio escondida atrás dos arbustos olhando para cima, onde tudo que podia observar eram as torres octogonais que se erguiam para o céu.
Elas a fizeram lembrar da História da Ilha das agulhas negras, um conto árabe que Matilde lhe contara certa vez, e que a impressionara muito.
O sol abaixava no horizonte e cobria todas as coisas com um véu escuro,
Mais ou menos a representação daquela tristeza que te envolve de repente,
E quando você percebe está completamente dominado, se perguntado de onde ela veio.
Mas o que ela se perguntava, na verdade, era porque não tinha dúvidas de que deveria estar ali.
Sentada no passeio, ela tinha um buraco na garganta maior do que ela própria.
A dor nos pés parecia agradável mediante ao mundo que se esvaía na sua traquéia....
Então foi quando aconteceu.
Um caro negro parou na porta do casarão.
Primeiro veio aquele homem, alto e louro cercado por um séqüito de empregadas com malas.
Depois veio a mulher negra e a menina bonita.Essas pessoas, porém, não passaram de borrões para Stella.
Por último veio a menina alta. Ela era magra, reta e alta como uma tábua.
Sua visão clareou.
Nahema tinha nove anos, assim como Stella.
Era a menina dos olhos de neve.
Tinha algo extremamente antigo emoldurado no rosto.Algo, como que mumificado, do tempo do caos primordial até a nossa atualidade cinza.
Uma lembrança arcaica nebulosa, empoeirada, quase bruta, da qual Stella sentia uma saudade tão infinita que doía cronicamente nas vísceras.
Seu coração batia como coração de rato.
Sua mente oscilava em nuances desordenadas, mas sua boca emudeceu.
Ela ainda era de pedra. Ela não foi vista.
Por isso quando o carro partiu, ela estava de pé, parada entre os arbustos.
Chorava sem saber por que, suas vísceras pareciam se liquidificar dentro dela.
Ela só havia visto aquela menina uma vez e agora era o fim do mundo vê-la ir embora.
Stella faria qualquer coisa para ter ido também.
Ela pensou em se converter em um animal, um fantasma, uma sombra.
Mas o mais doloroso é que ela continuaria sendo Stella.
E ela nunca mais olharia, por mais de um segundo, as roseiras do seu jardim.
E ela nunca mais olharia pela janela quando chovesse.
Nunca mais pararia de pensar em tempestades de neve.
Lembrar-se de algo sem saber o que é,
Enquanto via quem amava, sem saber porque, ir embora,
Era confuso, mas doloroso a ponto dela não se importar em ser atacada por um enxame de abelhas venenosas naquele exato momento; talvez até de desejar o ataque.
...
... E mais tarde, muitos anos depois, ela não sabia que diria para Nahema:
“Eu sempre soube, que passei minha vida inteira procurando por você”.
E que Nahema, infeliz como havia estado por quase toda a sua vida, responderia:
“Sinto muito, mas eu tenho que ir”.
...
Eu não acredito que ninguém seja inteiro por si só.
Que ninguém seja completo por si só.
Eu acredito, por outro lado, que é possível, viver incompleto, se acostumar a isso.
Mas a plenitude...
Vem de uma fonte completamente humana.
Vem de unificação.
Mas vai saber em quantas vidas, e em que tempo e em quantas partes, perdemos nossos pedaços;
Vai saber, em quantas pares, ou em quantas vidas, os reencontraremos.E sabe-se muito menos, se eles ao menos se lembrarão de nós.
...Só podemos, inclusive acreditar que eles existem,
Quando sentimos a falta que eles fazem....
segunda-feira, 9 de março de 2009
Jardim Escuro
E eu ficava imaginando, por onde aquele pinginho de vida teria andado até chegar no meu portão.
Tinha uma cabecinha pequenininha onde só se via olho.
E isso é o que eu acho de mais perfeito nos animais. Mais perfeito do que na comunicação humana.
Com eles a gente fala com o olho.
E ele tinha aquele olhão aberto pronto para amar incondicionalmente.
Eu me apego porque persisto no erro, e nunca aprendo o quando dói.
Eu me propuz desde aquele instante a fazer da vida dele agradavél.
Eu nunca imaginei que pudesse dar errado.
E eu falhei em todo os nivéis.
Eu deixei que as coisas ruins acontecessem.
E agora fico me perguntando o que é certo.
Me perguntando se ele sente dor,
Se ele fica com fome o tempo todo,
Qual será o nivél do desconforto.
Nada que eu fizer poderá redimir o meu descuido.
Eisto não importaria se algo pudesse curá-lo.
E eu fico pensando se eu estou sendo extremamente injusta,
Se eu deveria deixar ir.
É incrivél a capacidade que podemos ter de nos apegar há um ser "não-humano",
E, ao contrário do que se supõe como correto, gostar mais dele do que de muitas pessoas que se conhece.
E se importar mais do que os outros acham que você deveria.
Mas o que mais dói e olhar para ele e saber que poderia ser diferente.
Que ele poderia estar bem.
Saudavél.
Se eu tivesse prestado atenção.
Eu olho aquele olhão verde,
E vejo a fadiga,
Aquela ponta de dor,
Que não deveria existir em um pedaço de vida tão inocente.
A vida é estranha, as vezes mesquinha, as vezes cruel.
A situação que causa enorme dor em alguns, pode ser nada na pele do outro.
Em um momento pode se estar no último dos jardins ensolarados esquecidos dentro da floresta tropical,
No outro, no escuro.
Por muito tempo eu evitei esse post.
Pode parecer ridículo. Dramático. Exagerado.
Mas agora é oficial.
Eu lamento tanto.
Tanto.
Tanto.
Tanto.
Tanto.
.
.
.
E não sinto vergonha de dizer que peço perdão...
..
Honrada Seja
Menina de 9 anos estuprada por padrasto faz aborto
"De O Globo:
A menina de 9 anos abusada pelo padrasto em Alagoinha, em Pernambuco, e grávida de gêmeos, realizou aborto na manhã desta quarta-feira na Maternidade Cisam, vinculada à Universidade de Pernambuco, no Recife. Segundo o diretor médico Sérgio Cabral, responsável pelo procedimento, os dois fetos já foram expelidos.A equipe médica realizou ainda uma curetagem. Segundo Cabral, o aborto em caso de estupro é legal. O padrasto da criança, Jailson José da Silva, confessou o crime, e está preso na Delegacia de Pesqueira, no agreste pernambucano.- O risco maior seria ela de ela continuar essa gravidez. Uma criança de 9 anos não tem ainda seus órgãos formados. Se tudo correr bem, ela deve ter alta ainda esta semana - afirmou o médico.A Igreja Católica, que tentou impedir o aborto e ameaçou ir à Justiça, lamentou que o procedimento tenha sido realizado.- Nós, ministros da Igreja Católica, temos obrigação de proclamar as leis de Deus. Nesses casos, os fins não justificam os meios e a lei humana contraria a lei de Deus, que é contra a morte - disse o arcebispo de Olinda e Recife Dom José Cardoso Sobrinho “.
É incrível como a igreja tem memória e atitudes seletivas. Só não me faz rir devido aos meus sentimentos pela garota, que eu acho que, na minha condição de mulher (orgulhosa de quem eu sou e principalmente do meu gênero), não preciso nem de explicar.
Digo isso, porque é possível se encontrar mulheres que concordam que a garota não deveria ter abortado. Que acreditam que ela deveria segurar o fardo que foi violentamente obrigada a carregar, porque "deus assim quis", e porque “mulher serve para isso”, para suportar incondicionalmente as "crias" e servir ao homem, pois este é "um deus que tudo sabe e tudo pode". Tudo que eu tenho a dizer sobre essas mulheres é que infelizmente são almas compelidas por uma razão ou outra, a acreditar que não valem nada. Essas me entristecem profundamente. Mas não é sobre elas que eu estou aqui para escrever.
A igreja enfatiza o fato da menina ter "assassinado" duas crianças, diz que fere as leis de deus, mas pelo visto uma criança ser estuprada diversas vezes até engravidar, aos nove anos de idade, não fere lei divina nenhuma. Porque afinal, todo mundo sabe que no estatuto sagrado do deus católico está que escrito que as mulheres são máquinas de reprodução. Está escrito também, que os seres humanos, principalmente as mulheres, são instrumentos para carregar fardos e sentir dor.
Como eu tenho uma memória boa, indubitavelmente muito melhor que a dessa instituição "divina", eu me recordo de uma série de escândalos que aconteceram há alguns anos atrás, onde ficou comprovado que padres abusavam de MENINOS coroinhas, (salvo que essa é a mesma instituição que condena a orientação sexual HOMOSSEXUAL).
Logo, me sinto no direito que concluir que a Igreja católica faz apologia ao ABUSO SEXUAL, à PEDOFILIA, ao INFANTICÍDIO, ao ÓDIO, a PERVERSIDADE, e a TORTURA.
Posso entender porque a igreja, como instituição, se privilegia ao continuar vivendo uma visão teocentrista do mundo, pois depende dela para sobreviver (mesmo que, na minha opinião sua sobrevivência seja prejudicial para a humanidade). O que eu não entendo é porque as pessoas ainda são adeptas de algo que viola suas liberdades, e direito à humanidade, enquanto tantos seres humanos já foram atingidos pelas luzes do iluminismo, há centenas de anos atrás.
A "voz de deus" argumenta que médicos são assassinos por terem salvado a vida de uma menina de 9 anos. Que a mãe é assassina por ter livrado a filha de mais do que o risco de morrer em um parto que seu corpo não tem condições de suportar, além da acentuação de uma tristeza profunda que ela terá que carregar por toda a vida. Mas o que realmente me choca, é que em nenhum momento o fato de uma criança VIVA, portadora de IDENTIDADE, LEMBRANÇAS, com PELE, OSSOS e SANGUE correndo nas VEIAS, em nenhum momento os sentimentos dela foram evidenciados. Em nenhum momento a injustiça cometida contra ELA, entrou em pauta.
O que me deixa imensamente ENFURECIDA, é que a conduta dos profissionais que fizeram o aborto é avaliada com ferocidade pela igreja, mas nada foi dito sobre a atitude do PADRASTO, que é o verdadeiro CRIMINOSO, causador disso tudo, por parte da mesma.
Acredito que também deve estar escrito no "estatuto sagrado do deus católico" que tudo bem ser um estuprador de crianças, o terrível mesmo é que as crianças estupradas, tentem recuperar sua integridade e bem estar, realizando um aborto necessário.
A Igreja é tão absurda que eu não encontro mais as palavras para argumentar meu desprezo por ela. Nesse caso, deixo que as atitudes dela falem por si só:
" O arcebispo de Olinda e Recife excomungou a mãe da menina, os médicos e de todo o pessoal envolvido no aborto, evocando a primazia da lei divina sobre a humana. Segundo o arcebispo José Cardoso Sobrinho, “a lei de Deus está acima de qualquer lei humana. E se a lei humana é contra a lei de Deus, então não têm nenhum valor “. O caso está a dividir o Brasil. O Vaticano apóia a decisão do arcebispo do Recife, que não inclui o violador, que foi detido e incorre numa pena de 15 anos de prisão".
Só tenho a dizer, que ao meu ver ser excomungado dessa instituição, fracassada, cruel, hipócrita e desumana significa para mim, uma HONRA.
Logo, honrados sejam, os humanitários que salvaram o que pode restar dessa menina.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
PREVIEW
Se existir uma coisa que eu, na minha mínima e humilde experiência como escritora sei, é que nossos personagens são diferentes de nós. Eles nascem às vezes de um jeito e crescem fora do nosso controle. Por isso hoje eu aceito a Stella como ela é. Intensa, louca, irritante, aguda, dramática... meio poeta.
Por isso a deixo falar... quase toda vez que ela quer...
PREVIEW
Por Stella.
Desde que me entendia por gente havia dias que me sentia assim.
Como uma corrente de água que desce por todas as ladeiras rochosas de uma floresta gélida, que talvez fosse flutuante.
Água que desce silenciosa e triste, e descendo assim em completa solidão faz tudo que é invisível ao seu redor chorar.
Às vezes gosto de narrar no passado. Gosto de como as frases soam o que já passou. Que se perdeu imobilizado no ar de um segundo atrás.
Quando eu era criança me sentia triste sem motivo, e gostava de pensar em reinos imaginários e surreais. Em fontes que gotejavam água alaranjada. Uma única fonte parada no meio do nada, em uma terra com três luas no céu, onde a vida estava terminado há muito tempo.
Desenhava a rainha dentro da cúpula. Ela vivia há muito tempo em confinamento, porque no seu mundo ela só existia para ser adorada.
Mas depois que a vida começou a se esvair, ela era uma musa sem mestre. Talvez por isso eu a desenhasse, porque ela merecia os olhos de alguém mesmo que fossem apenas os meus, para imortalizá-la.
Sempre gostei do que estava perto do fim. A um centímetro, um milímetro a ponto de explodir, ou de se tocar. Ou de lentamente se corroer e se deteriorar do fim para o começo, ou do meio para o fim. A decadência da rainha era o que a mantinha viva e a fazia interessante na minha imaginação. Assim como algo arruinado que brilhava ao redor de todas as pessoas que eu amei.
O fato é que apesar disso, nunca me interessou consertar as coisas. Nunca me ocorreu colar as pessoas, mas já pensei várias vezes em despedaçar o mundo. Acho que é uma condição da minha natureza. Eu gosto do que está acabando, e gosto de viver o fim. Talvez por isso tenha procurado Nahema até o fim. Porque, na verdade para mim tudo pode estar em um milhão de pedaços, contando que estejam todos lá. O que eu não suporto, por excelência, é o incompleto.
Na infância eu, sustendo uma espécie de comportamento explosivo que depois se perdeu, costumava constantemente brigar com as outras crianças. Tinha um quarto com grande armário de madeira embutido na parede e uma cama estreita, onde me jogava para chorar e acalmar meu espírito após minhas lutas. Mergulhava a cabeça e observava a colcha dessa cama. Uma grande lua amarela, árvores negras e secas com galhos finos, neblina azul escura, e uma pequena ilha. E eu sentia, sabia, que conhecia aquele mundo. E o mundo da fonte de água laranja. E tantos outros!
Eu tinha fixação com eras de princesas. Palácios, segredos, reinos distantes. Às vezes me pergunto se toda criança tem esse clichê, ou apenas as crianças românticas, talvez regidas por influencias estranhas de águas gélidas. Talvez eu só pensasse nisso porque quisesse me sentir especial, quando claramente toda pessoa é capaz de ter alguma peculiaridade.
Crescer em geral só me dissuadiu do foco da ilusão. Aos poucos fui me forçando a pensar que era ridículo viver pensando no que não era palpável. E acho que por isso, no fim, eu sempre busquei uma razão, um momento em que eu me convencesse que uma existência dentro do mundo não-estranho e não-mágico em que eu me encontrava poderia valer a pena.
A busca em geral, era sempre a mesma. E o meu êxtase, assim como descobri muitos anos depois, na cozinha daquela casa com as luzes apagadas, era Como manteiga queimando na pele com açúcar.
Hoje sou águas gélidas. As mesmas que fui durante tantos momentos ao longo da minha vida. Águas em que me transformo no átimo de segundos, águas que me fazem sentir peculiar e esquecer que todos somos ordinários, que todos sofremos, nos entristecemos e murchamos. E que por isso o mundo é especial e misterioso.
...
Mas definitivamente a vida pode valer a pena se pelo menos uma vez você puder sentir Manteiga queimando na pele com açúcar.
Manteiga queimando a minha pele com açúcar.
Não fui eu quem disse.
Desconexo, eu sei. Mas essa frase não saiu da minha cabeça por anos.
E este será o título do meu novo relato. A ser escrito em breve. Mais um pedaço do todo que eu, incessantemente tendo juntar. E depois de juntar talvez tente incêndiar, e depois de incêndiar, talvez tente contar as cinzas, e reintegrá-las,
... Só para poder rasgá-las novamente.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
A verdade é Tristeza Profunda.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
AMARELO
Qualquer objeto, pintura, roupa, qualquer resquício dessa cor me lembra ela. A luz do sol, a tarde poeirenta e as abstrações agora guardadas e mim.
Se pelo menos eu pudesse matar a saudade. Agora... Décadas depois.
Mas para mim, nessa idade, sobrou o único alento dos velhos.
A lembrança.
... 1
Seus olhos no inicio esboçavam uma pálida cor de mel. E já na infância remota davam um aspecto estranho ao rosto fino encoberto por pele escura. As retinas eram circuladas por algo acinzentado que foi crescendo e tomou toda a sua visão, deixando seus olhos esbranquiçados e salpicados de uma pigmentação um pouco mais escura, como cinzas espalhadas em uma tempestade de neve.
Acho que eu nunca entendi ao certo que doença ela tinha. Algo degenerativo, eu acho.
A questão é que com a idade de dezessete anos ela já vivia no escuro.
Eu a encontrava nos jardins do fundo de sua casa, perto do quiosque de madeira com paredes que naquela época já estavam se deteriorando em mofo e cupins.
Suas roupas sedosas e multicores contrastavam com a grama alta e sem brilho que não era aparada há meses.
Alguns metros, na lateral, porém ocultada pelas grandes árvores do pátio, ouvíamos os ruídos de Shainty que, naquela época passava os dias na beira da piscina consumindo destilados e fumando cigarros de cravo. Ela tinha a pele naturalmente mais escura que a de Nahema, e mesmo assim era capaz de passar horas a fio no sol, sem nada fazer além de beber e fumar, o que a deixava ainda mais morena.
A história dela é do tipo que só vale a pena ser contada com grandes doses de minúcia, logo não pode ser relatada agora. Limito-me por enquanto, a apenas dizer que era extremamente difícil enxergar nela, algo além da sua aparência. Ela era uma mulher linda, e tinha aflorada nela uma sensualidade natural capaz de persuadir a maioria das pessoas a muitos atos não pensados.Não era possível concebê-la como um ser com sonhos, ambições e idéias. Para a maioria das pessoas, assim como para mim durante aqueles anos, ela era apenas terrivelmente bela.
Quando ela morreu daquele jeito terrível, eu, como a maioria das pessoas, não senti pena dela em si ou da sua dor. Mas lamentei por sua beleza perdida, que viraria comida de bichos abaixo da terra. No seu funeral, que reuniu em maioria vizinhos curiosos, apenas se ouvia falar frases como: “pobrezinha, e tão linda que era”, ou “uma pena ter morrido, tão bonita meu deus!”. Mas todos sabiam, e comentavam, que antes sequer que qualquer pessoa pudesse imaginar que ela morreria daquela forma, ela já estava arruinada.
Mas como disse, não devo falar de Shainty agora. Ainda é o momento de Nahema.
... 2
Ainda na grama com Nahema eu perguntava:
- E o verde?
- Sim, Stella, eu ainda me lembro como é. – Ela falava levando as mãos às têmporas me indicando que eu a aborrecia.
- Mas lembra assim, de tudo, cada tonalidade cada coisa que é verde? – Insistia eu.
- Que foi verde. – Ela corrigia.- As coisas não são mais de cores Stella, já te disse. E além do mais as cores não tem mais importância agora que minha mente não precisa mais percebe-las ou interpreta-las. Isso abre espaço na minha mente para no mínimo cem mil novas memórias, ando me lembrando também de coisas de quando era criança, que eu já havia esquecido. – Ela disse.
Mas eu estava muito absorta nas cores para prestar a devida atenção na última coisa que ela havia dito.
- Não acredito. – Eu dizia. Você não as esqueceu, estou certa de que elas ainda estão aí, como abstrações. Diga-me Nahema, qual o verde que você se lembra?
- Eu nunca gostei dessa cor. Não me incomodaria esquece-la, isto é, se você deixasse. – Ela respondia virando a cabeça na direção que eu estava, e eu, olhando fundo naqueles olhos tempestuosos ainda não conseguia identificar qual expressão teriam se estivesse bons.
- Então me fale de outra cor. – Eu insistia. – E o amarelo? Vai me dizer que também não gosta dele, você está usando amarelo agora. Mesmo sem poder enxergar você escolheu essa saia hoje. Não sabia que a estava usando?
- Claro que sabia. – Ela dizia. – Eu já havia decorado tudo, antes que meus olhos se fossem. Todos os caminhos, todos os degraus, e as texturas e a COR das roupas e os formatos das coisas.
- Então Nahema... Fale da abstração, como você se lembra do amarelo?
- Lembro da cor, Stella. Perdi a capacidade de enxergar a muito pouco tempo para não me lembrar exatamente de como é. Talvez me lembre para sempre. Mas não acho que saberia explicar adequadamente como é uma cor. É o tipo de coisa que você apenas enxerga e sabe o que é. Eu poderia dizer, como definição, que é uma cor primaria, que é resultado da sobreposição do verde e do vermelho e que certamente pode ser visualizada a certa altura nas faixas do espectro de cores. Mas isso não seria suficiente para você né?
Fiz que não com a cabeça, gesto que obviamente ela não pode ver. Mas meu silêncio indicou que eu continuaria ouvindo. Como o usual, já tinha conseguido começar a faze-la se sentir irritada. Mas se eu não a irritasse, o que seria dos seus dias monótonos e depressivos? Sentada sozinha no escuro dentro daquela casa cheia de loucos?
Ela continuou:
- Amarelo me faz pensar em conchas de caracóis na areia da praia, várias delas enfileiradas assimetricamente no final da tarde. E me faz pensar em um livro de histórias que alguém me mostrou uma vez quando eu era criança. A história era algo sobre uma menina levada por um redemoinho durante a noite. É tudo que me lembro da trama. E havia uma gravura de uma garota caindo de uma escada gigante parada no ar dentro do redemoinho no chão, ela tinha um braço levantado e o semblante sofrido enquanto os espirais no solo a devoravam. O redemoinho era verde-escuro, o pijama da garota era cor-de-rosa e as paredes cinza, mas essa cena, a cena em si, me faz pensar em amarelo. E quando penso em amarelo neste escuro , o que eu penso parece se acumular bem no centro do meu rosto, entre vão dos meus olhos.
Ouvi em silêncio e secretamente me decepcionei apesar de achar intrigante a sua concepção de uma cor viajar tanto na memória. Então, neste momento, pensei no que ela havia dito há pouco, sobre suas memórias infantis estarem retornando de uma parte esquecida da mente e ocupando o lugar da lembrança de objetos que antes só existiam claramente sendo processados pela visão.Mas naquele tempo o que eu realmente gostaria de ouvir era que ela se lembrava do amarelo do meu cabelo, ou algo simples assim. Mas claro que ela não diria isso.
Ela prosseguiu:
- Era isso Stella, que você queria ouvir? A abstração que você esperava para satisfazer essa coisa surrealista que você gosta de cultivar dentro de você?
- Sim. Era exatamente isso. – Eu respondi, disfarçando meus sentimentos, pois tinha a intenção de continuar a conversa.- E o azul, você gostava de azul, não?
- Agora chega Stella. Não quero mais falar de cores. – Ela disse irritada – Não quero mais falar de nada. Ou você fica aí sentada em silêncio, ou vai embora. Tenho outras coisas para pensar, e você está me distraindo.- Ela disse enquanto deixava seu corpo cair suavemente na grama.
“Tenho outras coisas para pensar”. Ela andava falando isso com freqüência. E eu não perguntava o que era, acho tinha medo. Preferia pensar que era um pós-trauma, algo decorrente da sua condição que se tornara definitiva. Conjecturava que toda essa história de memórias e cegueira estavam aguçando seus outros sentidos e ela ainda estava se habituando a isso.
É realmente difícil, pelo menos para mim, identificar, ou pelo menos aceitar, quando as pessoas começam a ficar perturbadas. Acho que tenho a tendência de achar todo tipo de excêntricidade normal, e respeitar a loucura alheia trantado-a como mania, ou capricho.
Lembro-me de quando Alice, minha querida Alice, começou a acordar durante a noite e exigir que fossemos para um quarto diferente do que nos encontrávamos. E depois exigia que trocássemos de localidade outra vez, um, dois, três hotéis por noite. Como era, por excelência uma mulher caprichosa, eu quase não questionei seu hábito. Mal sabia eu do que ela estava fugindo. Não vou negar que bem lá no fundo eu sabia que havia algo errado. Mas preferi não lidar com isso, esperava estupidamente que as coisas se normalizassem sozinhas. Por isso quando ela se jogou da janela do 27 andar, eu entrei em estado de choque profundo. Mas eu não poderia falar disso agora. Só posso dizer que ainda sinto-me culpada.
... 3
A questão, no entanto, é que assim como Alice Nahema sempre fora caprichosa, mesmo que tivesse construído um muro ao seu redor. E como caprichosa que era, não me deixava distinguir seus verdadeiros problemas de suas manias.
Comportava-se como se todos no mundo lhe devessem algo, e expressava tal comportamento na forma de ordens, pelo menos comigo. Nahema, indiretamente dava ordens o tempo todo. Mas eu, romântica e passional que era, gostava de interpretar seu modo de ser como reflexo do seu inegável espírito de liderança e assim sendo, me sentia fascinada.
Há! Se naquela época eu pudesse saber o que era. Há, se eu soubesse que naquele dia faltava menos de um ano para tudo acontecer! Para Shainty morrer, Nahema sumir e Leah ser trancada naquele lugar horrível.
E quando Nahema foi, ela foi tão rápido que não deu tempo de nada. Tempo de perguntar, oferecer ajuda, e nem mesmo, de simplesmente me despedir.
E dela, por muito tempo eu só guardei lembranças. Em especial uma lembrança perturbadora. Sobre o que aconteceu na esquina da rua de Matilde naquele dia. Eu nunca me arrependi de nada que eu fiz perto dela, mas as lembranças, por mais agridoces que fossem, às vezes voltavam para bater na minha porta, como se dissessem que a história ainda não havia acabado. E que, de forma eu deveria saber de tudo que ela não me contou. E que eu parasse de me atrever a ignorar isso.
... 4
Começou como um leve desconforto, as pessoas diziam que era por causa do acidente e da operação, mas eu me sentia diferente. Como se tivesse recebido um chamado para a vida. Li sobre os mistérios das experiências de quase morte, mas nada parecia explicar o que eu sentia.
No dia em que a minha própria irmã foi embora eu tive um sonho. E desde então não parei de sonhar com Nahema. Com as suas coisas, com a sua casa, e até mesmo com os caracóis na areia da praia que representavam seu amarelo. Eu os via como eu tinha certeza que ela os via em sua mente. E sonhava com as páginas do livro de história, a menina sendo engolida por um redemoinho com o mais puro semblante de sofrimento. Mas sonhava com a imagem embaçada, e acordava durante a noite paralisada de medo.
Eu sabia que nós tínhamos uma conexão.
Então eu fui atrás dela. Varreria o mundo, mas tinha certeza que a encontraria, e teria uma explicação plausível para o meu desconforto, os meus sonhos e a ausência de paz. Embora sabendo que, tudo de ruim que eu sentia na pele não se comparava a falta que eu sentia dela.
Mas como terminou a minha busca, o que aconteceu antes desse dia, depois desse dia, tudo que tem haver com ela, esses pedaços se resumem a minha vida.
E eu ainda não estou pronta para contar.
E até hoje eu não sei, não tenho certeza.
Certeza de nada.
... E o que é a vida além de um emaranhado de lembranças e conhecimento?
As lembranças que seu cérebro aprisiona sem pedir consentimento. O conhecimento que é empurrado para dentro de sua garganta, mesmo quando você não tem certeza que o quer.
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Também existe o amor.
Amor que eu encontrei dentro da teoria do caos que habitava os olhos dela.
Perdi-me em meio às tempestades da sua história.
Tornei-me cinzas.
Renasci delas.
Jurei que jamais voltaria.
E se a encontrei?
Isso já é querer saber demais.
.
